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Saindo da Matrix?

O relógio marcava 15:30 horas quando eu pus meu pé para fora do colégio, dei "Tchau" ao porteiro e a André e segui o velho caminho rotineiro para casa, porém antes mesmo de chegar a esquina, a sensação de culpa aumentava ainda mais dentro de mim. Respirei fundo, controlando a minha vontade de chorar. A cena lembrava-me facilmente várias que eu presenciava todos os dias, mas aquela tinha me tocado, era um senhora de idade com seus cinco netos atravessando a rua... as roupas surradas a voz da senhora fina e desgastada dizia:
"É melhor você trocar de shorts, esse está muito rasgado" e estava, os cortes na horizontal mostrava a calcinha laranja da garota - que não devia ter mais de 7 anos.
"Não está não, ele está bom, não tem problema" a garotinha retrucava enquanto eu me aproximava para dobrar a esquina. "É o melhor que eu tenho". Ainda pude ouvir em sussurro.
Meus olhos marejavam, a visão já estava embaçada quando um pouco mais à frente na calçada um senhor, também de idade, e seu netinho estavam catando papelão e lixos recicláveis. Mordi o lábio inferior, os olhinhos do garotinho - que ainda usava chupeta - se prendiam em mim. Tentei sorrir, mas era difícil com as lágrimas já escorrendo contra minha vontade. 
Dobrei a outra esquina, o mundo parecia mais cruel que nunca. Perguntava-me  o que as diferenciavam de qualquer outra crianças? A resposta era nada, absolutamente nada. A culpa pesava cada vez mais, encostei-me numa parede e fechando os olhos tentava fazer o choro cessar.
Inspira, aspira. Inspira, aspira. Passei o resto do caminho distante, nem sequer prestava atenção aos carros e quase fui atropelada. Eu desejava internamente sentar-me no meio fio abraçar os joelhos e chorar continuamente, mas parecia patético demais, qualquer um poderia passar ali e me perguntar o que estava acontecendo... O que eu responderia? "Eu só estou descobrindo a realidade"? Provavelmente, porque naquele estado eu não saberia mentir.
Cheguei ao prédio e dispensei o elevador. Subi de escada, chorando ao som dos meus passos. Era patético eu sabia, mas ali ninguém poderia me encontrar. E o que eu queria ter feito no meio fio, fiz ali, nos degraus da escada. 

É nesses momentos que eu começo a duvidar da existência do Ser Supremo, é nesses momentos em que a sensação de culpa - já constante - parece pesar mais do que tudo, é nesses momentos em que eu me pergunto o que estou fazendo aqui. É quando eu finalmente caio na realidade e percebo que eu não sou nada, a não ser mais uma humana.