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Testemunha Ocular.

Não sei por onde começar, normalmente seria pelo começo, mas o começo dói demasiado. Então, seria pelo fim, mas ainda não tem fim (nem parece que irá haver). Estou no meio, beirando entre a realidade e a ficção. Sou testemunha ocular. Só enxergo, não faço nada. Não posso fazer, porque este não é o meu lugar. Mantenho-me calada, encarando a televisão que, no mudo, passa imagens simultâneas. Não consigo enxergar. Há pouco mais de um metro de distância escuto tapas. O som agudo de unhas arranhando a pele fina de um pescoço invade o quarto. Meu olhar se desloca, sinto meus olhos se encherem de lágrimas. Respiro fundo. Não posso chorar, não posso entrar em pânico. Minha mãe encara sua irmã mais nova, depois levanta os olhos para mim. Fecho os meus. Sinto o espasmo de susto e sofrimento me invadir. Como eu, ela está no lugar errado. Mamãe tenta dizer alguma coisa para minha tia se acalmar. Funciona, ela para de se ferir. Saio de lá, não sou útil. Pego uma vassoura, limpo os cacos de vidro e louça que estão jogados no corredor que liga a cozinha e a sala. Mamãe aparece com o celular no ouvido. Meu avô não responde. A mãe da minha tia também não. Ela me encara. Guardo a vassoura percebendo o quão inútil é o que estou fazendo. Volto a encará-la.

"Vou ligar para Fátima"

Assinto com a cabeça e vou em direção a varanda. O horizonte ia de encontro com o mar agitado. O céu estava escuro e a avenida iluminada. Senti o contraste da noite linda que estava lá fora, e do pesadelo que estávamos vivendo ali dentro. Suspirei. Mamãe me manda apagar as luzes do apartamento e diz que vamos ao hospital. Minha tia está terminando de trocar de roupa quando chamo o elevador. Ele demora, desejo que ele funcione como o do nosso prédio. Que ele seja uma máquina do tempo. O elevador demora a chegar. Fecho os olhos. Ouço barulho de passos. Mamãe chega acompanhada de alguém semelhante ao que seria minha tia com um rosto inchado e vermelho. O pescoço está cheio de hematomas. Entramos no elevador, ele para no quarto andar, tento parecer que estou numa noite normal quando o vizinho entra. Ele responde ao nosso "Boa Noite" e se mantém calado. Passamos pela portaria e recebemos olhares arregalados do porteiro. No carro, minha tia resmunga coisas sobre o meu avô e a nova namorada de 21 anos dele. Continuo calada. Mamãe retruca alguma coisa e diz que ela tem razão. Digo que a nova mulher é momentânea e que logo ela vai embora. Minha tia assenti e balbucia algo sobre a mãe dela. Fico calada. Abro a janela do carro e deixo o vento me impatar de ouvir mais reclamações. Tiro a sandália. Abraço os joelhos. Chegamos na clínica.

Mamãe e minha tia entram por um corredor bege, que cheira a mofo. Eu fico na sala de espera, sozinha. Mais uma vez encaro a televisão sem dar importância ao que está passando. O celular toca. É meu irmão. Digo que está tudo bem e peço para ele falar com vovô. Encaro minha bolsa, não veio comigo nenhum livro, só minha agenda. Encarei a minha companheira de noites em claro. Escrevo um resumo do dia e o celular toca novamente. Meu irmão diz que meu avô está em alguma cidade distante, o nome não me interessou, só os quilômetros que os separava. Mamãe reaparece, conto que vovô está na tal cidade. Ela volta a entrar pelo corredor. Procuro algo para me distrair, vejo uns panfletos no balcão da atendente. Um deles chama a minha atenção. Trastorno bipolar.